Damon observava a cena com as sobrancelhas franzidas. Havia uma tensão estranha ali, e ele sentia isso. E sabia que os outros dois também sentiam.
O silêncio desconfortante que pairava sobre os três foi quebrado de repente por uma melodia engraçada vindo do jardim da casa. E, por algum motivo, Stefan sabia do que se tratava.
Elena o encarava sem uma expressão facial indefinida enquanto Damon rolava os olhos como se também já soubesse de algo.
- Trouxe o cover de Alvin e os Esquilos de novo, Stefan? Você já foi mais original – O mais velho dos Salvatore provocou. Stefan estava ocupado demais esperando alguma reação de Elena para ligar para as piadinhas de Damon.
Ligeiramente, Stefan deu uma breve olhada da janela para o jardim, e suas suspeitas se confirmaram. Lá estava a Rena. Aquela maldita Rena. De novo.
De saco de cheio e querendo acabar com tudo isso o mais rápido possível, olhou significativamente para Damon e Elena e pulou a janela, caindo com destreza na grama. Logo, os outros dois estavam postos ao seu lado – Elena deve ter pego carona nas costas de Damon ou algo assim.
Que seja.
A Rena deu uma volta em torno dos três e começou a andar rápido em direção leste. Stefan respirou fundo. Até quando essa coisa de “seguir a rena” ia durar?
- Ah, qual é?! Não sou mais criança, Stefan. Brincar de “siga o mestre” não tem mais graça – Damon olhou para a Rena que continuava se afastando – E, seguir uma Rena…Sério? – Ele riu.
- Damon, apenas…apenas não torne isso mais difícil e mais vergonhoso. – Stefan pronunciou enquanto virava-se para seguir o rastro do animal do Papai Noel. Conseguia ouvir passos atrás dele, mas algo estava errado. Seus ouvidos apurados só conseguiam ouvir uma pessoa o seguindo.
Alguém tinha ficado para trás.
Stefan virou-se rapidamente e avistou Elena parada, as mãos fechadas em punhos, encarando os dois irmãos que se afastavam.
- Elena? – Stefan estranhou o som da própria voz. Ela deveria ter soado mais firme, ele pensou.
- Stefan! – Ela respondeu em um tom que demonstrava surpresa, incredibilidade e apreensão. Tudo ao mesmo tempo. Stefan estava ali e mal tinha dirigido uma palavra à ela e estranhamente estava sendo seguido por Damon para algum lugar que uma Rena estava os guiando.
Que diabos estava acontecendo ali?
- Eu sei, isso é insano – Damon interferiu, como se ver o que a garota estava pensando – Se fosse do ‘velho Stefan’ que estivéssemos falando, eu diria que essa Rena teria armado uma armadilha por todo o mal que ele já fez contra os animaizinhos. Sabe, comer coelhos indefesos, esquilos que são pais de família e blábláblá – Ele rolou os olhos, entediado. – E você não vai querer ver o que eu vi há uma semana atrás, então apenas siga a maldita Rena.
Stefan mal conseguia encarar os olhos dos dois. Aquilo tudo era tão vergonhoso. E só se tornava mais vergonhoso ainda por saber que era necessário.
Continuou caminhando, e dessa vez podia ouvir duas pessoas o seguindo.
Agora não tinha mais volta.
Depois de alguns minutos, pararam. Só perceberam onde que a tal Rena tinha os guiado quando estavam na casa de lago que era dos pais de Elena. Aquilo não ajudava nada Stefan. Ele tinha uma história com Elena ali.
Ele ficou encarando a água, parado na margem, como se algo milagroso fosse aparecer e tirá-los daquela situação. E tudo aquilo por causa de uma maldita chave!
- Vamos brincar, Stefan. Finja que, o que quer que seja que você tenha para nos falar, faça-o rápido. Como puxar um band-aid. Não sei se você percebeu, mas é noite de Ano Novo. Não que eu ligue para isso, mas tem uma ceia imensa com comida ruim e algumas taças de sangue nos esperando lá em casa – Damon estava visivelmente sem paciência.
Aquilo de certa forma incomodou Stefan. Se Damon achava que aquilo estava sendo ruim para ele…
Resolveu começar pelo lado mais fácil, já que Damon não calava a boca.
- Tudo bem. Antes de tudo eu só queria deixar claro que não estou fazendo isso por vontade própria – Stefan começou, e quase adicionou um ‘ou, pelo menos, não totalmente própria’ quando viu a sobrancelha levemente franzida de Elena, que assistia tudo em estado atônito – Damon… eu queria te agradecer.
Stefan cuspiu a frase. Foi algo rápido. O antigo Stefan teria falado tudo de um jeito melhor,mas o novo Stefan não era assim; porém, era completamente perceptível a emoção em sua voz.
Damon o encarava com uma sobrancelha levemente arqueada. Estava prestes a rir.
- Olha só quem está de volta, o senhor tentei-desligar-meus-sentimentos-mas-para-variar-eu-falhei-nisso-também – Ele disse.
Stefan limitou-se a fingir que não ouviu e continuou com o discurso.
- Eu sei que o que você fez para me dar a liberdade foi muito arriscado, e eu lhe agradeço por isso – Quando terminou, colocou as duas mãos nos bolsos da calça jeans escura que vestia.
Damon pareceu ponderar o que acabara de ouvir e, depois de alguns segundos, reagiu.
- Apenas retribuindo o favor, Stefan – Disse com indiferença.
Stefan Prosseguiu.
- E te agradecer por estar cuidando…dela – Ele não conseguiu falar o nome de Elena.
Estranho.
Damon olhou para Elena que, agora, tinha algo diferente no olhar, mas permanecia apenas como uma observadora.
- E você – Stefan se aproximou ligeiramente da moça – também merece meus agradecimentos. Por tudo o que tem feito para tentar me salvar.
- Stefan, eu nunca desistiria de você, eu nunca…
- Shhh – Stefan a interrompeu – Vim te agradecer mas, também, vim te pedir uma coisa.
Os dois se olhavam com tanta intensidade que isso chegou a incomodar Damon. Mas não é como se ele fosse sair dali por causa disso ou coisa do tipo.
- Quero que pare. Por favor, Elena, estou te pedindo. Eu já te disse isso antes mas parece que você não escutou com atenção. Eu não sou o mesmo. Abra seus olhos e olhe ao seu redor, Elena. E esqueça de mim.
A voz de Stefan chegava aos ouvidos de Elena como agulhas, machucando-a. Por que, finalmente, ela tinha visto o quão sincero e verdadeiro aquilo era. Era mais do que um pedido. Ele estava quase implorando.
Antes que qualquer um dos dois pudesse ter qualquer tipo de reação, Stefan correu. Correu para o mais longe que pôde, sabendo que, caso ficasse, iria se arrepender do que acabara de falar.
Elena e Damon ficaram. Sozinhos. Na beira da água, próximos à casa.
Vamos começar o ano novo do jeito certo, à meia noite de hoje
Quando eles apagam as luzes, vamos começar
Dê adeus ao ano velho
E receba o ano novo
Vamos assistir o ano velho morrer
E nossas esperanças voarem alto como uma pipa
(Let’s Start The New Year Right – Irving Berlin)
Algum tempo se passou e nenhum dos dois pronunciou uma palavra sequer. Aquela tensão estranha ainda estava pairando por ali. Mas havia algo diferente agora.
Havia algo a mais.
- Sem querer estragar esse momento de ‘curtir os sons da natureza’…Faltam poucos minutos para a meia noite, Elena. Acho melhor voltarmos. – Disse Damon, segundos antes de Elena finalmente se mexer e mostrar que não tinha virado uma estátua viva.
Ele quase pôde ouvir o estalo vindo do cérebro dela. Algo como um barulho de uma fichinha caindo.
Estranho.
Pela primeira vez em longos meses, Damon viu uma expressão diferente no rosto da jovem. Ela não estava brava com algo, ou preocupada com algo, ou com medo de algo. Ela estava…serena. Tranqüila e serena.
- Não – Ela finalmente disse. – Não acho que devemos voltar. Se importa de ficar aqui essa noite? – perguntou, apontando para a casa que um dia foi de seus pais.
Damon a olhou desconfiado. Estava tudo errado ali. Começou a imaginar que Stefan a tinha compelido de algum jeito. Mas não disse ‘não’. Fez um breve aceno com a cabeça e começou a caminhar em direção da casa, mas ao passar por Elena, teve seu braço agarrado. Ela o segurava com uma força que demonstrava determinação.
O mais velho dos Salvatore ficou encarando a garota por certo tempo antes de entender.
Ele entendeu que ela tinha entendido.
Tinha algo diferente nos olhos de Elena. Algo como faíscas, pequenas faíscas que pareciam tímidas, com medo de brilharem mais forte. Ao longe, eles conseguiam ouvir os primeiros fogos de artifícios explodindo no céu escuro pela meia noite, ouviam gritos de comemorações das pessoas que viviam nas proximidades do lago. Mas era como se não ouvissem nada.
Aquela intensa troca de olhares dizia muita coisa. Era quase como se um conseguisse ler a mente do outro. Por que, finalmente, os dois estavam no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Em sintonia.
Damon, durante aqueles minutos, pensou que algo estava errado. Uma avalanche de lembranças tomou conta de sua mente, dessas que costumam dizer que acontecem momentos antes da morte. Lembranças dos dias que viveu após ter conhecido Elena. Lembranças de quem ele era, de quem ele costumava ser – o vampiro sem escrúpulos, sem sentimentos e sem regras. Que matava pessoas inocentes por prazer. Não é como se nada disso não existisse dentro dele mais – a diferença é que, agora, essa fúria e raiva que ele cultivava dentro de si estava sob o controle de uma mortal que pouca coisa viu da vida.
Elena, por sua vez, estava sentindo-se leve de novo. Como se algo pesado tivesse sido tirado de suas costas. Ela tentou se auto enganar durante tanto tempo…Estava sempre tão determinada em salvar Stefan que acabou acreditando na própria mentira que criou. Mas no fundo, bem lá no fundo, de algum modo ela sempre soube que Damon não era só aquele Damon. Ela sabia que ele era algo mais. Ela sentia o potencial que, de verdade, havia dentro dele. E ela gostava disso. Ela gostava dele.
A escuridão do céu de Mystic Falls foi preenchida pelas cores dos fogos de artifício, caindo sobre os dois como cachoeiras brilhantes.
- Feliz ano novo, Damon – Elena fez-se ouvir enquanto seus olhos ainda se mantinham presos aos do rapaz.
- Feliz vida nova, Elena – Damon respondeu, segundos antes de, finalmente, acabar com a distância entre os dois.
—
- Cadê. A. Chave? – Stefan estava de volta à casa do Papai Noel, sem nenhum pingo de paciência. Ele tinha feito o que lhe tinha sido pedido, não tinha? Ele merecia a porcaria da chave.
- Stefan, meu filho. Devo dizer que me senti orgulhoso de você nesta noite. – O velho senhor pronunciou – Você fez o que era certo e, além, você percebeu que isso era a coisa certa. Pode ter certeza que, de alguma forma, você mudou a vida dos dois. Deve ter sido difícil para você, eu imagino.
- Cadê. A. chave? – Stefan repetiu, as mãos fechadas em um punho tão forte que fazia com que os nós dos dedos ficassem brancos.
- Sempre esteve perto, filho.
A Rena, que estava descansando ao lado do Papai Noel, levantou-se e pôde-se ouvir um leve tilintar.
Stefan não estava acreditando.
Um brilho estranho capturou seus olhos. A chave estava pendurada no pescoço do animal.
- Mas o que? – O rapaz indignou-se. – Ela não estava aí! Eu teria visto!
O senhor de barbas brancas deu uma risada gostosa, que ecoou pelo ambiente.
- Sempre esteve aí, Stefan. Mas você estava determinado demais a me obrigar a te devolvê-la, e depois sua mente ficou inteiramente ocupada com o pedido que te fiz. Você não parou para olhar ao seu redor.
Num átimo de segundo, Stefan arrancou o cordão do pescoço daquele bicho irritante, fechando sua mão ao redor da chave.
- Espero que tenha aprendido alguma lição esse ano, filho. E pense duas vezes antes de fazer qualquer coisa com essa chave se não quiser que eu lhe faça uma visitinha fora de época.
A risada divertida do bom velhinho se tornava cada vez mais distante a medida que Stefan corria para longe dali.
Agora ele tinha a chave. Tinha Klaus em suas mãos novamente.
Ele só precisava pensar no que fazer de agora em diante. Não, ele não estava seguindo a dica do Papai Noel. Claro que não. Só estava tomando as devidas precauções para que nada desse errado.
Papai Noel? Dica? pff!
Autoria de Juliana Marrão e Fernanda Schein.
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